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Coluna: Paula Patrícia Torres

Turismo é rede: o que um boicote faz com o destino

Paula Patrícia Torres é especialista em Turismo, com especializações em Gestão em Turismo e Psicopedagogia e MBA em Gestão Pública. Formada em Pedagogia, é guia de turismo regional (Paraná e América do Sul) e agente de viagem.

Nos últimos dias, circularam listas de estabelecimentos comerciais indicados para boicote por causa das eleições. Cada pessoa tem a sua opinião política, e não é sobre isso que quero falar. Quero falar do que esse tipo de campanha provoca em um destino turístico.

Quem trabalha com turismo sabe que nenhum negócio funciona sozinho. O visitante passa pela agência, pelo transporte, pelo hotel, pelo atrativo, pelo bar e pelo restaurante, e a experiência dele só é boa quando todos funcionam bem. Por isso, quando se boicota um estabelecimento, o prejuízo não fica nele. Ele chega a todo o trade do destino.

Pense em um café bem avaliado e com movimento. Com a casa cheia, o dono consegue atender melhor, contratar a equipe de que precisa, melhorar a experiência do cliente e planejar o futuro com mais segurança. Se esse movimento cai, deixam de ser criados empregos aqui, na nossa própria região.

Existe também o boicote digital, que considero o mais silencioso e o que dura mais. Um restaurante com boa avaliação costuma aparecer bem nas buscas e atrair turistas. Se ele começa a receber notas baixas por motivos que nada têm a ver com o serviço, quem pesquisa passa a achar que o atendimento é ruim, mesmo que não seja. O turista não conhece a motivação política por trás daquelas notas. Ele só vê a avaliação e pode escolher outro destino ou ficar menos tempo na cidade.

Essas avaliações continuam lá. Daqui a cinco anos, quando alguém pesquisar aquele estabelecimento ou a cidade, elas vão aparecer e influenciar uma decisão de viagem afetada por uma eleição que já passou.

O bom senso precisa vir do trade, que trabalha todos os dias pelo desenvolvimento turístico do território, mas também da população, que mora aqui e depende da economia local. Ela acaba sendo a maior prejudicada: ao ferir a imagem de um estabelecimento, deixamos de gerar empregos perto de nós e ficamos, na nossa própria cidade, com um atrativo mal avaliado. O impacto vai bem além do negócio atingido.

O turismo também tem um compromisso com o desenvolvimento sustentável do território. O turismo de natureza ajuda a preservar o ambiente, o cultural mantém vivas as tradições e o gastronômico valoriza a cultura alimentar local. Todos geram renda e trabalho digno, e um fortalece o outro.

Esse resultado depende de colaboração. Quando os elos do trade se articulam, o turista fica mais tempo, gasta mais e volta. E isso não se limita a uma cidade: envolve o município, a região turística, o estado e a região geográfica, todos se impulsionando para que o visitante, entre tantos destinos no mundo, escolha o nosso.

Termino este primeiro texto da coluna com uma reflexão. As políticas públicas de turismo em todo o país precisam ter continuidade quando o governo muda. Programas, planos e ações construídos com planejamento não podem parar a cada ciclo eleitoral, porque assim perdemos tempo, recursos e confiança.

Para isso, o trade precisa ter um olhar de conexão, sem partido e sem polarização. Cabe ao setor se aproximar das governanças e do governo eleito, seja ele qual for, e se apresentar como realmente é: uma rede que trabalha em colaboração, com um objetivo comum, entregar a melhor experiência possível ao visitante.

A eleição termina, e o destino continua sendo o lugar onde a gente vive e trabalha. Cuidar dele é tarefa de todos, acima de qualquer divergência.

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