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Setor Policial

Receita Federal e Gaeco deflagram operações contra fraude de R$ 271 milhões no comércio de subprodutos animais

Ação simultânea cumpre 64 mandados de busca em quatro estados da Região Sul e Sudeste; Justiça determinou o sequestro de bens e imóveis de alto padrão

A Receita Federal e o Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco) — por meio dos núcleos Regional de Londrina e Especializado Fiscal — deflagraram simultaneamente, nesta quarta-feira (4), a 2ª fase da Operação Enxágue e a Operação Catéter. As apurações miram organizações criminosas especializadas em sonegação de ICMS, falsidade ideológica e lavagem de dinheiro no comércio de subprodutos de origem animal, como sebo e gordura, matérias-primas cruciais para as indústrias de biodiesel e curtumes.

Ao todo, as equipes cumprem 64 mandados de busca e apreensão distribuídos por 28 municípios nos estados do Paraná, São Paulo, Santa Catarina e Rio Grande do Sul. A Justiça determinou o sequestro e a indisponibilidade de bens, direitos e valores que ultrapassam R$ 271,4 milhões, além da imposição de medidas cautelares a nove investigados.

FOTO: RECEITA FEDERAL / GAECO
FOTO: RECEITA FEDERAL / GAECO

Engenharia financeira e empresas “noteiras”

De acordo com as investigações, os grupos utilizavam empresas de fachada — conhecidas como “noteiras” — registradas em nome de "laranjas" para emitir notas fiscais sem qualquer correspondência com operações reais. O objetivo era gerar créditos tributários fictícios para indústrias adquirentes e movimentar recursos ilícitos, transferindo todo o passivo tributário para pessoas jurídicas sem patrimônio nem existência física.

Embora conduzidas de forma autônoma, as operações possuem forte conexão. A Operação Catéter desdobrou-se parcialmente a partir do compartilhamento de provas da Enxágue e de outras ações do Gaeco (Operações Engenho e Las Vegas). Ambas as frentes identificaram o uso dos mesmos Fundos de Investimento em Direitos Creditórios (FIDCs), administrados pela mesma instituição, como canal para transformar títulos sem lastro em dinheiro com aparência lícita.

FOTO: RECEITA FEDERAL / GAECO
FOTO: RECEITA FEDERAL / GAECO

Sequestro de patrimônio milionário

As ordens judiciais de restrição patrimonial somam o montante exato dos débitos de ICMS constituídos até o momento:

• Operação Enxágue: Sequestro de até R$ 143.390.934,40.

• Operação Catéter: Sequestro de até R$ 128.090.762,56.

As medidas alcançam contas bancárias e de pagamento, veículos, imóveis, quotas societárias e cotas de fundos de investimento. Somente na Operação Catéter, a Justiça determinou o bloqueio de:

• Mais de 80 imóveis (incluindo fazendas, lotes em condomínios fechados e um apartamento de luxo em São Paulo adquirido por R$ 13,2 milhões);

• 103 veículos e uma moto aquática;

Ativos de dez FIDCs (avaliados em cerca de R$ 63,8 milhões);

• Valores em quatro companhias securitizadoras (cerca de R$ 10,9 milhões).

FOTO: RECEITA FEDERAL / GAECO
FOTO: RECEITA FEDERAL / GAECO

Os detalhes das investigações

Operação Enxágue: do jogo do bicho à "indústria" de fachadas

Nascida de investigações sobre a exploração do jogo do bicho em Arapongas (PR) em 2020, a Operação Enxágue revelou um esquema fraudulento mantido desde 2006 por um escritório de contabilidade.

O grupo abria empresas em nome de pessoas vulneráveis — como pedreiros, serventes e empregados domésticos —, além de usar identidades falsas e nomes de pessoas já falecidas. Em um dos casos citados pelos investigadores, um homem falecido em 2017 constou no quadro societário de sete empresas até 2019.

Estrutura da fraude: Os fornecedores reais (frigoríficos e curtumes) vendiam o sebo animal sem nota ou destinavam os documentos às "noteiras". Estas, por sua vez, repassavam as notas falsas às indústrias finais, que aproveitavam os créditos de ICMS sem que o imposto fosse recolhido. A análise financeira apontou que um único FIDC em Maringá injetou mais de R$ 60 milhões nessas empresas de fachada.

Operação Catéter: R$ 1,3 bilhão movimentado sem estrutura

Iniciada em 2024 pelo Gaeco, a Operação Catéter investigou uma fábrica de subprodutos de Londrina que emitiu R$ 1,1 milhão em notas falsas em apenas quatro dias. As apurações revelaram que o grupo acumulava R$ 128 milhões em certidões de dívida ativa do Estado.

O real controlador do grupo operava às escondidas. A empresa foi formalmente repassada a terceiros em Goiás, mas continuava funcionando no mesmo parque industrial. Os endereços cadastrais informados ao Fisco variavam entre uma sala num centro de comércio popular em Londrina e um lote não localizado em Várzea Grande (MT) — este último chegou a movimentar R$ 276,6 milhões.

Ao todo, o Laboratório de Tecnologia contra Lavagem de Dinheiro do MPPR identificou a movimentação de R$ 1,33 bilhão em 63,5 mil transações bancárias, montante incompatível com a estrutura física operacional do grupo.

FOTO: RECEITA FEDERAL / GAECO
FOTO: RECEITA FEDERAL / GAECO

A ação contou com o apoio ostensivo e operacional dos Gaecos locais de São Paulo, Santa Catarina e Rio Grande do Sul.

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